sábado, junho 20, 2015

A mulher do Tsipras é que sabe!

Não vou gastar muito tempo nos pormenores - ou pormaiores! - que todos conhecem da economia grega. Vou apenas enumerar alguns: 

- 20% do PIB desapareceu em cinco anos;
- desemprego em quase 27% no primeiro trimestre do ano; 
- emigração a crescer, como consequência da pobreza; 
- banca em pré-bancarrota, sendo as causas mais evidentes o incumprimento nos pagamentos dos clientes (superior a 24%) e os levantamentos massivos de depósitos nos últimos meses (30 mil milhões de euros desde Outubro de 2014). 
A situação do sistema financeiro helénico é tão grave que os especialistas já denominam o sector de "bomba-relógio" e ninguém sabe se os principais bancos vão abrir portas na segunda-feira.
- provável limitação/fecho da circulação de capitais (públicos, mas também os privados).

A falta de acordo entre o governo de Alexis Tsipras e os parceiros europeus só agravou os dados acima enunciados. De bom, este impasse de quase cinco meses não teve nada. Ou melhor, teve para a mulher do primeiro-ministro grego!

Pelos vistos, Betty Baziana, a primeira dama, terá dito ao marido que se conseguisse um "mau acordo" para a Grécia - entenda-se, controlar as contas públicas e arranjar dinheiro para pagar as dívidas - iria divorciar-se. É isso mesmo!

Não sei se será por causa da mulher, mas a verdade é que na Grécia, de acordo, nada! Em cinco meses parece estar a perder-se algum do trabalho feito - parte importante - nos últimos cinco anos.

Será que Tsipras pretende continuar casado - deixando o navio grego afundar-se - ou será que aquilo que Betty Baziana realmente quer é deixar o marido e está a usar esta "desculpa" para grego ver?

Se é este o caso, poderia ter-nos poupado - e principalmente ao povo grego que está numa agonia cada vez mais sufocante - muito tempo e trabalho. Lá diz o ditado: entre marido e mulher ninguém mete a colher... Nem mesmo os credores da Grécia.


quarta-feira, junho 17, 2015

A sede de dólares de Angola

Artigo de hoje no Diário Económico:

O mesmo petróleo que ajudou a economia angolana a tornar-se uma potência dos dólares é agora um poço cujo fundo está longe de ser encontrado.

O governo de Luanda faz o que pode e é por isso que Eduardo dos Santos foi à China na última semana, em mais uma visita oficial, para pedir dinheiro.

Em Pequim, as necessidades angolanas não podiam vir em melhor altura. O país, que quer esconder o arrefecimento económico, vai aproveitar para exportar o excedente agrícola e fazer ainda mais negócios, como é o caso da construção. 

Num reflexo da crise, os táxis "candongueiros", que transportam a maioria da população angolana, aumentaram 50%; a gasolina não pára de subir; faltam dólares no país e nos cartões de crédito. As construtoras portuguesas desesperam pelos pagamentos, enquanto as lojas da Avenida da Liberdade, em Lisboa, vão olhando para o relógio à espera que regressem os clientes. Chegou a época do "cacimbo". Resta saber quanto tempo vai durar esta seca.

sexta-feira, maio 22, 2015

Conte até 3 e não respire

O meu artigo desta semana no Diário Económico:

O número 3 tem uma elevada carga simbólica. O mesmo é dizer que está associado à união, ao equilíbrio e à perfeição.

Basta lembrar que são três os poderes ligados à democracia – jurídico, executivo e legislativo. Em Portugal, o 3 foi, nos últimos anos, sinónimo de ‘troika’: os 3 elementos do FMI, BCE e Comissão Europeia que impuseram esforços e, como refere a oposição ao Governo, “deixaram o país mais pobre”.

O que escapa aos portugueses é que temos tido outra ‘troika’, desde que vivemos em democracia. Refiro-me ao PSD, PS e CDS-PP. Têm sido estes três partidos a decidirem o nosso destino. Mas sem saberem contar até 3. E isso tem-nos saído muito caro porque os interesses de cada partido têm sido confundidos com os interesses da nação! A psicologia explica que a chegada de um filho obriga o casal a implementar novas regras e hábitos. Ensina-o a contar até 3.

Será que também os partidos do arco da governação podem, finalmente, esquecer as quezílias e aprender a contar até 3? É pura aritmética.

quarta-feira, maio 20, 2015

A beleza da novidade: -0,002%

Que Portugal se ia financiar, mais cedo ou mais tarde, a taxas negativas no mercado primário (onde ocorrem os leilões de dívida) não era surpresa para ninguém. Era uma questão de tempo até que o sinal "-" surgisse numa emissão. Já tinha estado perto de acontecer, mas a (bela) novidade surgiu hoje - quarta-feira, 20 de Maio de 2015.

O IGCP, que gere a dívida pública portuguesa, emitiu 300 milhões de euros a seis meses com uma taxa negativa - a primeira de sempre - de -0,002%. E porquê? Desde logo porque houve muita procura por parte dos investidores, o que deu outro poder de negociação. Mais importante: porque o BCE continua de armas e bagagens no mercado e compra basicamente tudo o que lhe aparece à frente, como é o caso da dívida nacional. E não digo isto de forma pejorativa. Acontece com com os leilões portugueses da mesma forma que ocorre com os dos restantes países periféricos da Zona Euro, excepto com a Grécia. Basta lembrar que a Alemanha e Espanha já pagaram juros negativos antes de Portugal.

O aspecto positivo (para Portugal!) do leilão de hoje é que em Novembro, quando tiver de pagar aos credores, o IGCP vai pagar menos do que o montante emitido hoje (daí a taxa negativa). O que nos leva a uma questão, no mínimo, curiosa: Mas o que é que leva os investidores a comprarem dívida e a perderem dinheiro? Ou dito de outra forma, por que é que Portugal vai entregar menos dinheiro do que aquele que recebeu dos investidores? 

  1. Uma das explicações está no próprio modus operandi do mercado de dívida. Isto é, muitos investidores compram agora, mesmo que a taxas negativas, porque não vão manter a dívida comprada até à maturidade. Compram agora para vender amanhã, ou daqui a uns meses. E acreditam que o vão conseguir fazer a um preço superior àquele a que compraram no leilão.
  2. Outra questão diz respeito à "falta de activos" onde investir. Escasseiam alternativas aos grandes brancos, fundos de investimento e seguradoras. Estes são, por norma, investimentos mais conservadores.
  3. Uma outra explicação, não menos importante, é a baixa inflação ou a ausência dela - como mostram os últimos dados para a Zona Euro.

Dito isto, é importante a estabilidade do mercado de dívida e do risco sobre Portugal. O país financia-se hoje a juros muitos mais baixos do que há apenas um ano; poupa nas emissões; gere melhor os calendários; e tem a seu lado o BCE que é (também) o seu anjo protector.

domingo, maio 10, 2015

TrAPalhadas

Terminaram os 10 dias de greve dos pilotos da TAP. Ou melhor, terminou a paralisação de ALGUNS dos pilotos. Pode dizer-se que esses ficaram duplamente paralisados: por um lado, porque não voaram e, por outro, porque afinal os efeitos da greve ficaram muito aquém do desejado. Mas não sem antes provocar - como escrevi recentemente - fracturas profundas.

Foi-se a (pouca) confiança na companhia aérea que dificilmente se recupera. E quando o fizerem terá passado tempo. Muito tempo! Um turista francês dizia, naturalmente aborrecido por ficar em terra quando o intuito era o de voar, que "a TAP é deplorável". Este é um dos danos colaterais desta greve: todos são tomados por igual. Dito de outra forma, é como se TODOS - e não é verdade! - tivessem aderido à paralisação. Mas TODOS perdem: a empresa, os trabalhadores e o país.

A segunda maior greve da história dos pilotos da TAP terminou com uma média de 30% de voos cancelados diariamente, o que significa que todos os dias - e em alguns estes números foram superados - realizaram-se mais de 70 por cento dos voos.

O sindicato (SPAC), através do seu presidente, foi o actor principal de um enredo sem história e com momentos de puro terrorismo, como o dos "prejuízos de 30 milhões de euros que infligimos à TAP". Ainda assim, e se é que há algo de positivo nisto, os prejuízos ficaram bem aquém dos 70 milhões inicialmente projectados. Mas repito: provocaram-se fracturas profundas que podem provocar danos também no processo de privatização. No final desta semana, vamos ficar a saber quantas propostas foram entregues ao governo.

Agora, os mesmos pilotos que - e isto são factos - deixaram a TAP num estado de saúde ainda mais crítico, ponderam avançar com nova greve. Estão no seu direito. No entanto, a questão que se deve colocar é racional avançarem com nova paralisação nos tempos de correm, mesmo beneficiando desse direito consagrado na constituição.

Winston Churchill disse a certa altura da sua vida que "fanático é o sujeito que não muda de ideia e não pode mudar de assunto". Será que ainda é possível mudarmos de assunto?

quarta-feira, maio 06, 2015

Mercados à parte...



Sou jornalista económico. Não sou economista, investidor ou especulador de mercado. Mas lido, diariamente, com os mercados financeiros. Enquanto jornalista aprendo, apreendo e tento - é esse o meu dever - explicar aos telespectadores o que são e como funcionam. 

Falar de Mercados Financeiros é tão abrangente como enumerar todas as cidades ou localidades do globo. É preciso método, estudo e a ajuda preciosa daqueles que - esses sim! - gerem diária e directamente vários tipos de activos. São eles os comentadores do Fecho de Contas e do Bull & Bear que me/nos ajudam a melhor compreender o mundo da alta finança: as cotações; os altos e baixos dos índices; as aquisições e fusões e os colapsos. Juntos, tentamos perceber até os comportamentos mais irracionais do mercado. Até esses merecem uma explicação. 

Como explicou um dia Bill Miller, antigo ‘chairman' e CIO da Legg Mason Capital Management, "como os espelhos dos parques de diversões nem sempre reflectem correctamente o nosso peso, também os mercados nem sempre reflectem de forma correcta as informações".

Fazer notícias económico-financeiras é isto mesmo. É não deixar que os "exageros" do mercado, das decisões, dos negócios afectem a análise, que se pressupõe racional. É isso que faço no Fecho de Contas e no Bull & Bear.

Em estúdio não nos propomos cumprir a regra de ouro de Waren Buffett: "nunca perca dinheiro". Preferimos ter a nossa própria regra: analisar o mundo económico e financeiro sem tendências mas aceitando que há dias em que temos de os enfrentar: o Bull e o Bear, entenda-se.

Texto publicado hoje no Diário Económico, no âmbito dos 5 anos do ETV.



sábado, abril 25, 2015

"A via da responsabilidade"

Uma coisa é certa: a apresentação do conjunto de medidas e do cenário macroeconómico do PS obrigaram o PSD e o CDS/PP a acelerarem as negociações e avançarem com a coligação pré-eleitoral às legislativas. O que não é necessariamente mau!

Os dois partidos - e respectivos líderes - já estavam em negociações há várias semanas e já se sabia, há mais ou menos oito dias, que estava praticamente tudo fechado. Faltava só conhecer a "base de cálculo" para a atribuição de lugares políticos que, sabe-se agora, serão os resultados do PSD e CDS/PP nas legislativas de 2011 (neste capítulo, o CDS levou a melhor sobre o PSD).

O segredo - importante neste tipo de anúncios - estava na data: o 25 de Abril, dia simbólico que representa a liberdade e a mudança em Portugal... Um segredo que, pelos vistos, foi muito bem guardado.

A novidade da noite parece-me, no entanto,  o anúncio da abertura a independentes. Ou seja, os dois partidos vão coligados mas querem - em caso de vitória nas legislativas - um governo e uma maioria estáveis e estão disponíveis para integrarem os tais independentes. Uma alusão ao que aconteceu em 1979 quando a Aliança Democrática de Sá Carneiro saiu reforçada com os chamados "reformadores" (dissidentes do PS).

Os dois partidos vão coligados às legislativas pela terceira vez na história da política nacional. Dirão os mais descrentes que, ambos os líderes políticos já sabiam, de antemão, o que ia dizer o Presidente da República neste 25 de Abril. Isto é, que são "necessários compromissos interpartidários (...) para cumprir com os objectivos que o futuro nos coloca".

Mas olhemos para as declarações desta apresentação surpresa da coligação. Em comum, tiveram as críticas às políticas do passado que, para Passos e Portas, endividaram o país e levaram ao pedido de resgate. Paulo Portas destacou o "interesse de Portugal" e de "futuro", depois de ter recebido - o governo! - "a casa a arder". Para o futuro - e esta é, sem dúvida, uma reacção ao cenário macroeconómico socialista - o objectivo passa por recuperar "o poder de compra, gradual mas firmemente", assim como "eliminar a sobretaxa de IRS e reduzir o emprego jovem".

Do lado de Passos, o discurso foi afinado (sem supresa!) pelo mesmo diapasão. O Presidente do PSD destacou a "estabilidade" da coligação "apesar das diferenças"; criticou o passado socialista e olhou, também, para o futuro: "Há muitas feridas para sarar. Há muito a fazer pela coesão social. Portugal não enfrentará, felizmente nos próximos anos, dificuldades como as que tivemos"

Num aspecto - certamente terá noutros - Passos tem razão. Os juros baixos, o petróleo mais barato, o plano Juncker e os fundos comunitários não duram para sempre e, por isso, há que aproveitá-los rapidamente. É aquilo que Passos denomina de “A via da responsabilidade”.


quarta-feira, abril 22, 2015

Cenário político: todos perdem!

Cartoon de Rodrigo de Matos
Permitam-me que comece este texto por traçar uma analogia entre a política nacional e o futebol.
Ainda esta quarta-feira criticava, numa tentativa construtiva, os portugueses que se felicitavam e gozavam com a derrota (pesada!) do FC Porto em Munique para a Liga dos Campeões. O que defendi e defendo é que somos todos portugueses e que, por isso, devemos pôr esse tipo de clubismos de parte. Pelo menos, nestes casos!

Fechado o parênteses, olhemos então para as semelhanças com os políticos nacionais. Comecemos pelo recém-apresentado Cenário Macroeconómico - com medidas incluídas - do Partido Socialista. Terá virtudes - como o objectivo do crescimento; da criação do emprego; do "encher os bolsos" como alguns defendem. Mas terá também defeitos - desde logo a questão de não especificar quanto é que os cofres públicos vão receber para compensar as perdas, garantidas, de receita fiscal de muitas das medidas agora anunciadas. Parece-me óbvio que, mesmo um documento elaborado por especialistas, não é perfeito ou incólume a críticas.

O que não se compreende - e daí a analogia com o futebol - é que estes "clubismos" políticos nunca ou raramente consigam alcançar um consenso alargado. Defendem, por norma, o supremo interesse nacional. Todavia, na prática, percebe-se que esse interesse é o dos partidos e não o do país. Vejamos apenas um exemplo simples (também ele do futebol): a trasladação de Eusébio para o panteão - antes do tempo mínimo previsto na lei - obriga, precisamente, a uma mudança legal. Por este motivo - e não questiono as qualidades da lenda do futebol português - os partidos estão dispostos a um consenso alargado. Contudo, quando se fala de questões mais estruturantes, aí a questão muda de cor e entram os tais "clubismos" em campo.

O governo PSD/CDS também teve/tem aspectos positivos. A começar pela coragem demonstrada em algumas das medidas implementadas; pela luta/tentativa em equilibrar as contas públicas - o que de resto serve de base de partida para este programa socialista agora mais ambicioso e direcionado para o emprego e crescimento económico.

Por que não um consenso alargado a 10, 20 anos em Portugal? Ou até mais? É melhor andarem os políticos a avançar com medidas nuns anos que são depois desfeitas por outros nos anos seguintes? É esse o verdadeiro interesse do país? 

No final, será que o país - porque deve ser esse o supremo interesse dos governantes - fica a ganhar? 
Será que não é possível encontrar um consenso transversal da Esquerda à Direita? Ou da Direita à Esquerda? 
A realidade mostra que não é possível e que, no final, todos perdem!
É caso para dizer: país 0 - políticos 1.