sexta-feira, janeiro 08, 2016

Maldito Salário

Publicado hoje no Diário Económico:

A crise que muitos analistas dizem já ter passado, continua a marcar as empresas nacionais. Ao desemprego juntam-se agora o atraso ou o não pagamento de salários.

No dicionário, a palavra Salário significa “retribuição pecuniária do serviço executado”. A palavra deriva do latim Salarium e nasceu de sal, outrora usado como forma primária de pagamento.

Há quem diga que a maior e mais difícil privação para o ser humano é a do sono, associada muitas vezes às forças especiais ou a quem, por outro tipo de obrigações, tem o tempo de tal forma ocupado que não sobra muito para dormir. E se este primeiro ponto não merece grande contestação – quem não conhece as consequências de noites mal dormidas que atire a primeira pedra – o próximo também não: a privação de salário.

São várias as centenas de milhar de desempregados em Portugal. Mas há (felizmente!) quem esteja no outro prato da balança, apesar da conjuntura ainda muito difícil do país. São pessoas com trabalho, que se levantam todos os dias para cumprirem com as suas tarefas a tempo e horas. Que aguentam horas extra sem que estas lhes sejam pagas. Que abdicam da família porque o trabalho a isso obriga. Colocam-se em segundo plano para que no topo esteja sempre e só o empregador. Até se sujeitam, por causa da conjuntura adversa, a atrasos nos pagamentos. Há, no entanto, nesta equação uma variável que não pode ser ignorada: o não pagamento de salários.
O pior cenário que um qualquer trabalhador pode ter em termos profissionais, além do desemprego, é trabalhar mas não ser pago por isso. 

A lei nem sempre protege quem mais dela precisa. Os que querem trabalhar mas, nestes casos, não conseguem vêem-se obrigados a deslocar-se para o emprego até que os prazos legais sejam atingidos. Recorrem a quem os pode auxiliar – mesmo que também com dificuldades; deixam de pagar as prestações. Entram em incumprimento mesmo que em primeira e última instância isso não seja necessariamente responsabilidade sua! Encontram desculpas para se desculparem. Fazem ver aos bancos que se não pagam é – mesmo! – porque não podem. E estes casos são muitos. Por causa da crise, são cada vez mais!

Os empregadores, que têm a responsabilidade de pagar os ditos salários, começam a ficar sem sal. Outros já não têm quaisquer receitas para o fazer. Há quem não consiga cumprir com as suas obrigações salariais não por vontade, ou porque sim, mas porque a tal conjuntura se complicou de tal forma que há que ir racionando o dinheirito que vai entrando. Para muitos, a solução será o fecho de portas, sem dinheiro para actualizar os salários em atraso e muito menos para pagar indemnizações. Mais uma vez, a lei nem sempre é amiga de quem fica literalmente a arder.

Perante este cenário, o salário, ou a falta dele, torna-se uma maldição. O trabalhador mantém a família em segundo lugar mas com a agravante de não levar para casa o dinheiro que permite saldar contas e comprar comida. Castiga-se psicologicamente por não o conseguir. Acredita que não há alternativa. Um estudo publicado em Fevereiro do ano passado, na revista The Lancet Psychiatry, revela que, por ano, há 45 mil pessoas que se suicidam porque estão desempregadas. Sobre Portugal, conclui que foi o país “mais afectado em termos de suicídios ligados ao desemprego”, apesar da “qualidade dos dados disponíveis ser bastante fraca”. Mais importante do que estes dados, é mostrar-se a quem não tem salário ou emprego que há alternativas. E que algumas podem ser viáveis!

terça-feira, dezembro 29, 2015

Quando chove mas finges que está sol


O mundo continua recheado de pessoas que vivem iludidas. Iludidas com a vida em geral e com tudo o resto em particular! Quando chove torrencialmente, porque é época de monções, querem acreditar cegamente que estão em pleno verão. Se está frio não querem perceber que convém vestir um agasalho. E, mais importante em tempos onde reina a austeridade laboral, ignoram o óbvio e transformam-se numa espécie de anarquistas sem nome, objectivos ou preocupações.

Não se preocupam com elas próprias e muito menos com os outros! Ignoram, como sempre, o óbvio e com isso iludem-se prejudicando todos os que com eles se cruzam. Não percebem - porque lhes falta (pelo menos) inteligência emocional - que quando uma casa está a arder ou se uma família está em apuros todos devem unir esforços... E não o contrário! Porque o contrário apenas acelera a queda da casa.

Por vezes, o melhor é abandonar a casa e deixar lutar aqueles que o querem realmente fazer!

terça-feira, dezembro 22, 2015

O Contribuinte? Ai aguenta aguenta...

A história volta a ser redundante. Um banco, à rasca, é intervencionado. Ou melhor, faz uma cirurgia, sobrevive, é vendido, mas os custos da operação são os contribuintes que asseguram! Ninguém lhes perguntou se estavam disponíveis para isso ou o que é que pensavam sobre a situação. Foi-lhes dito - foi-nos dito! - que havia risco sistémico.

A factura será paga ao longo dos anos sendo que os activos problemáticos - os resíduos que ninguém com bom senso quer - ficam na posse dos contribuintes. No entanto, há um aspecto que interessa analisar: a (falta de) responsabilização dos vários intervenientes em todos estes casos. Há a gestão/administração da instituição; os reguladores - Banco de Portugal e CMVM; os governos e também as autoridades europeias, ou seja, o BCE. E o problema reside aqui. Os vários elementos desta equação guardam o segredo, que é a situação débil do banco, e quando já não há nada a fazer divulgam esse segredo.

No Banif, além da nacionalização parcial, protelou-se a venda ou o futuro sustentável do banco. Esperou-se que o tempo tratasse do assunto. Todavia, o tempo mostrou que não havia solução fácil para a instituição que acabou por perder centenas de milhões de euros quando os depositantes começaram a ver que onde havia fumo havia mesmo fogo. E mais uma vez - à semelhança do que aconteceu com o BES - o governo avançou quando o BCE avisou que ia fechar a torneira.

A crise, já o escrevi, justifica muita coisa. Mas não tudo! É preciso apurar-se responsabilidades. E para isso não bastam as comissões parlamentares de inquérito. É preciso que a justiça actue. Pelo meio, é preciso ver se não haverá mais bancos a precisarem de ajuda. Se esse for o cenário, então já conhecemos a receita que foi bem explicada por um outro banqueiro a respeito dos impostos em Portugal: o contribuinte? Ai aguenta aguenta!


sábado, dezembro 19, 2015

Despedimentos a mais

Noticiámos, ouvimos e lemos a melhoria de alguns indicadores em Portugal. Melhoraram os números, não todos, mas a economia real continua igual a si própria: cresce pouco, conta todas as migalhas e no final sobra pouco. Muito pouco.

O problema maior é que para manter postos de trabalho não chegam migalhas. Sinónimo disso são os 120 trabalhadores que foram para a rua no Sol e no i; os 70 funcionários do centro de produção da Unicer em Santarém e os 500 trabalhadores da Soares da Costa. Em números redondos, desapareceram 700 postos de trabalho em cerca de um mês.

Só nas empresas que fizeram manchete. Seguir-se-ão mais! Nos media, na banca – o Financial Times estima mil colaboradores no Novo Banco e há ainda o Banif. A crise justifica muita coisa. Mas não tudo. Multiplicam-se as explicações para as causas deste flagelo. O que se vê (muito) pouco é o escrutínio à gestão que é feita nestas empresas.™

sábado, novembro 21, 2015

Vidas Cruzadas

Artigo publicado a 19 de Novembro de 2015 no DE sobre os atentados de Paris:

Os atentados de 13 de Novembro em Paris deixaram a descoberto várias histórias que têm em comum o terrorismo, mas também a sobrevivência, a coragem e a memória que vencem o medo mesmo quando os tempos são de incerteza.
O filme “Crash”, de 2004, retratou bem a questão do preconceito e do racismo, mas mais importante, relembrou-nos que há histórias que estão inter-relacionadas.

Quis o destino que, depois da polémica mundial do ‘dieselgate’ a envolver a Volkswagen, o tema diesel fosse novamente notícia mas por causas bem mais nobres. A Diesel desta história fica, infelizmente, associada aos atentados de 13 de Novembro em Paris. Foi abatida a sangue-frio cinco dias depois, na zona de Saint-Denis, durante uma operação policial que evitou não só um novo atentado como terá servido para eliminar o cérebro da carnificina. A sua coragem fez com que, de uma mega operação e de altíssimo risco, resultassem, apenas, cinco polícias feridos. A Diesel, um dos cães-polícia utilizados pelas autoridades francesas, detectou os explosivos que preenchiam um apartamento. Morreu a fazer aquilo para que foi treinada: detectar explosivos e salvar vidas humanas. Tinha sete anos, era um pastor belga, e conseguiu terminar a sua missão com a dignidade que lhe foi permitida. A França e o mundo não a esqueceram! O hashtag #JeSuisChien foi criado em sua homenagem e foi o segundo mais utilizado, no Twitter, no mesmo dia em que foi abatida.

Nas histórias dos atentados de Paris fica ainda uma outra que serve de homenagem às, pelo menos, 129 vítimas mortais: o caso de Hélène Muyal, de 35 anos. Estava no local errado à hora errada. Perdeu a vida no teatro Bataclan quando assistia a um concerto onde um luso-descendente se fez explodir. O corpo de Muyal, que deixa um filho com apenas 17 meses, foi identificado dias depois pelo marido, Antoine Leiris, jornalista da rádio France Bleu. E foi pelo cunho deste jornalista que a história se tornou viral. Numa carta aberta e depois numa entrevista televisiva, Antoine afirmou aquilo que ninguém esperaria, que os terroristas não terão o seu ódio, apesar de lhe terem assassinado a mulher.

A história de Hélène cruza-se com uma outra, a de um menino com cerca de três anos que está com o pai junto a um dos vários locais de homenagem às vítimas de Paris. O momento é captado por uma estação televisiva. O jovem diz ao pai que têm de procurar outra casa porque há “mauzões” que matam as pessoas com armas. E mais uma vez, a resposta do pai é surpreendente ao explicar que a sua casa é em França e que as armas combatem-se com flores, as mesmas que relembram as vítimas.

As carnificinas como a de Paris têm um aspecto que, apesar da frieza indescritível dos eventos, é muito positivo: une as pessoas e revela-lhes que há muitas histórias que se cruzam sem que isso fosse premeditado.
Estas três histórias – haverá muitas outras! – partilham o selo de sangue dos atentados terroristas de Paris. O mesmo que marcou também o jogo de futebol entre a Inglaterra e a França, no Estádio de Wembley. As nações uniram-se e o estádio vestiu-se com as cores da bandeira francesa. Nas bancadas e no campo ouviram-se mais de 80 mil pessoas a entoar “A Marselhesa”. Foi simbólico. Tão simbólico quanto as flores que, para uma criança de três anos, têm a capacidade de destruir armas ou a coragem de Diesel que padeceu para evitar que outros inocentes tivessem o mesmo destino de Hélène.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Ensaio sobre a cegueira

Artigo de opinião no Diário Económico de 17/11/2015:

Os disparos verbais foram imediatos e mantêm-se nos dias subsequentes aos atentados de Paris. Dissemina-se a teoria do medo e tenta-se, ao máximo, generaliza-la. 
Por cá, o que há de novo são as velhas opiniões cegas sobre os povos que por motivos ideológicos, religiosos ou por mero vestuário destoam do nosso status quo. São manifestações dos extremistas contra muçulmanos; é a questão dos refugiados que põem em risco o “nosso” país e que vêm para nos matar com as suas bombas presas à cintura. 
A resposta está à vista com o recurso à força e à violência. O que Portugal e os mais cegos não esperavam era que um dos homens-bomba de Paris, terrorista frio e impiedoso, fosse luso-descendente. 
E aqui está a verdadeira novidade. Será que, daqui em diante, vamos todos pensar bem antes de abrir a boca? Ou será que vamos manter a cegueira, ignorando que a mãe do Ismael é portuguesa, e destacando o pai que é Argelino?

segunda-feira, novembro 09, 2015

A teoria das teorias

Sim, o comércio externo da China contraiu em Outubro. Sim, o mercado quer agora acreditar - é para isso que apontam as probabilidades - que a FED vai subir juros, pela primeira vez em quase 10 anos, já em Dezembro e que o BCE pode aumentar os estímulos à Zona Euro. Sim, saíram previsões da OCDE que deixaram a malta em alerta. E todos estes factores, juntos e misturados, criaram pressões sobre os mercados. A esta longa equação juntou-se outro aspecto: o caminho da independência da Catalunha. Mas há um ponto que não é verdadeiro: que foram estes factores que transformaram os mercados nacionais, hoje, num vasto manto de vermelho carregado.

A bolsa afundou mais de quatro por cento, com o sector da banca - o mais avesso e exposto à incerteza - a ser completamente fustigado com perdas de quase 10 por cento! Não vale a pena criarmos ilusões porque a equação é simples: incerteza = pressões. Não estou a falar do partido que governa porque também não é para isso que olham os investidores que nos emprestam dinheiro e investem no país e nas nossas empresas. Refiro-me à incerteza pura e dura. E neste ponto, este acordo bilateral do PS com BE e do PS com o PCP há-de confrontar-se com decisões em que não haverá maioria parlamentar - basta que o BE, por exemplo, apoie e o PCP não! Ou vice-versa. Para que haja maioria parlamentar, num governo minoritário socialista, é preciso que haja, sempre, o apoio dos três partidos.

Aquilo que a bolsa hoje expressou, em simultâneo com o mercado secundário de dívida, foi que não concorda com um meio acordo. Querem um acordo total e têm medo que, perante a incerteza, o país pare.
Quanto ao resto, não interessa se é do PS ou do PSD. E não há! Não há um acordo transversal. Daí que os juros sobre a dívida portuguesa a 10 anos tenham ultrapassado hoje os 2,9 por cento, o valor mais alto em quatro meses. E aqui podemos, todos, agradecer ao facto do BCE estar no mercado para não termos assistido a uma pressão vendedora ainda maior. Hoje, pelos motivos que enumerei no início deste texto, os juros das dívidas periféricas também subiram. Mas nada que se compare com as yield sobre a dívida nacional. Portugal voltou hoje a pagar mais de 2% do que a Alemanha para emitir dívida a 10 anos (no mercado secundário); mais 1% do que Itália.

Só esta segunda-feira evaporaram-se do PSI20 qualquer coisa como dois mil milhões de euros. Esqueçam a teoria do papão dos mercados e deixem as teorias de lado porque os números que estão neste texto são factuais.

quinta-feira, outubro 22, 2015

A culpa é da arbitragem do Presidente

O Presidente da República fez aquilo que há 40 anos se aplica em Portugal - apesar da Constituição ser mais abrangente - após eleições legislativas: o partido que tem mais votos forma governo. Foi o que aconteceu, no passado mais ou menos longínquo, com Soares, Guterres e Sócrates. Isto se pensarmos, apenas, nos governos socialistas. 

O que é que distingue então estes exemplos da actual coligação PàF? Se quisermos simplificar: os partidos da Esquerda uniram-se para fazer cair a Coligação PàF e depois logo se vê. Logo se vê porque não há medidas (oficiais) conhecidas. 
Fala-se de acordos mas ninguém os conhece. E ao contrário do que habitualmente é válido na política, aqui o que parece - haver um acordo PS+BE+PCP - não é! Não será pelo menos até ser oficializado.

Aqui chegados importa olhar para o título deste texto. É inacreditável a forma como se destrata - e aqui refiro-me à figura do Presidente de República e não concretamente a Cavaco Silva - a decisão  e o próprio Chefe de Estado. No mínimo, podemos dizer que é pouco cordial afirmar-se, como fez Catarina Martins, que o discurso de Cavaco "mais do que um discurso de partido é um discurso de seita!".

Se as eleições fossem um jogo de futebol, e utilizando a linguagem da bola, os partidos da Esquerda venceram o jogo, mas graças ao árbitro, que aceitou os golos em fora de jogo. No final dos descontos, foi afinal a PàF que levou a melhor.

O que aí vem são certamente tempos de instabilidade governativa. O primeiro teste - depois dos últimos 18 dias - para António Costa será a aprovação do Presidente da Assembleia da República. Se conseguir vencer essa batalha, vai tentar, juntamente com o BE e PCP, fazer cair o governo. Resta saber o que virá depois. A ter em conta as palavras do Presidente da República, o que nos espera - a todos - poderá ser um governo de gestão liderado pelo PSD e CDS-PP.

domingo, outubro 18, 2015

Até que os muros nos separem

Artigo publicado no E+ do Diário Económico de sexta-feira, 16 de Outubro 2015:

Actualmente há, em todo o Mundo, 65 muros que dividem países. O objectivo é controlar os migrantes e evitar a entrada de terroristas. Mas há outra realidade associada: até 2018, a Indústria da Segurança Nacional de todo o Mundo deve valer 480 mil milhões de euros.

Para quem não sabe o que é um muro ou qual a sua utilidade, aqui fica uma breve definição que é facilmente encontrada no site do dicionário online Priberam: Obra (geralmente de alvenaria) que separa terrenos contíguos ou que forma cerca. Resguardo, defesa.

No mundo estão actualmente em construção ou já prontos 65 muros. Percebeu bem: 65! A 9 de Novembro de 1989, quando caiu o muro de Berlim, e com ele a Cortina de Ferro e a União Soviética, havia 16. O que é que mudou? Terá sido a segurança - ou a falta dela! -, ou estará esta nova realidade também relacionada com oportunidades de mercado? Diria que ambas as hipóteses estão correctas.

Por um lado, temos uma transição de força entre terroristas, com o ISIS - ou Estado Islâmico como é conhecido - a destacar-se em relação a uma Al Qaeda de quem se ouve falar, felizmente, cada vez menos. No entanto, há outra questão. Um analista, especializado em fundos de investimento, dizia-me durante uma entrevista, que os fundos expostos a acções de empresas de segurança estão a ter rendibilidades muito significativas, o que é corroborado pelos números que vão sendo conhecidos. Senão vejamos: o mercado da segurança nacional a nível mundial deverá valer, em 2018, qualquer coisa como 480 mil milhões de euros. A cidade de San Antonio, no estado norte-americano do Texas, recebe em Abril do próximo ano a Border Security Expo - uma espécie de Expo da segurança fronteiriça. E não é por acaso que são os EUA a organizar a décima edição do evento. A maior economia do Mundo é simultaneamente um dos países que mais investem no sector.

O Departamento da Defesa norte-americano tinha um orçamento, para 2014, de mais de quatro mil milhões de euros só em segurança cibernética. É, por isso, simples percebermos que a indústria da Segurança é quem mais tem a ganhar com a... insegurança. A questão que se deve colocar é se muros como os que já existem a separar, novamente, países cumprem a sua função. Será que, por exemplo, a barreira que separa a Tunísia da Líbia - construída após o massacre de Junho - impede a entrada de terroristas? Vai a política do arame farpado entre a Bulgária e a Turquia ou entre a Hungria e a Sérvia obstruir a entrada/passagem de migrantes que fogem à guerra? A resposta é não! Pelo menos, não totalmente.

O que é que resulta daqui? O regresso a um mapa retalhado, preenchido por cortinas de arame farpado e betão, com militares armados e dedos no gatilho. São autênticos monumentos a céu aberto.
A Comissão Europeia, com um intuito alegadamente mais construtivo, vai despender, pelo menos, oito milhões de euros no financiamento à investigação em segurança das fronteiras externas. O objectivo? Identificar e prevenir o tráfico de seres humanos e a migração ilegal. A este montante juntam-se mais 27 milhões direccionados às novas tecnologias que servirão para prevenir o crime e o terrorismo e ainda 15 milhões de euros destinados à investigação sobre a origem e o impacto dos fluxos migratórios na Europa. Tudo somado: 50 milhões de euros.

Há quem chame a estas barreiras os muros das lamentações. Diria, sem qualquer simbolismo religioso, que são essencialmente muros a lamentar.

segunda-feira, outubro 05, 2015

Democracia é isto! Custe o que custar...

Durante a campanha eleitoral, António Costa - que teria teoricamente a seu favor a conjuntura - pediu a maioria absoluta. No desfecho das eleições legislativas não só não conseguiu a maioria absoluta como nem sequer venceu! Nem por "poucochinho". E não é tudo. Vai ter de sujeitar-se, ou então demitir-se, a acordos com a Coligação constituída pelo PSD e CDS-PP.
Para já, o ainda líder do PS rejeita qualquer cenário de demissão. Mais: deu-se ao desplante de sair do Hotel Altis - a sede do PS sempre que há eleições - como se tivesse vencido algo. É verdade - e irrevogável - que a Coligação perdeu (muitos) votos. Mas é igualmente verdade que quatro anos depois de um pedido de resgate e de muitas exigências, o actual Governo conseguiu ser reeleito! Foi o primeiro a conseguir o feito em toda a Europa.
António Costa não esteve bem ao não aceitar a Democracia, e a sua  magnitude. Não pediu a demissão e, com isso, fragilizou o Partido Socialista.
Da noite eleitoral retenho os seguintes factos: Catarina Martins angariou votos com mérito; o PCP perdeu votos com demérito de Jerónimo de Sousa que deveria estar de saída, mas decidiu salientar a derrota da "maioria de Direita"; António Costa e o PS deveriam repensar o futuro de forma séria e coerente; a Coligação PàF consegue uma vitória inédita em toda a Europa, embora sem maioria absoluta!
Dito isto, entramos numa fase que eu sempre defendi e que pressupõe um consenso alargado para que sejam tomadas medidas estruturais!

terça-feira, setembro 29, 2015

A minha panela de escape

Comecemos pelas consequências daquele que é já visto como o maior escândalo não-financeiro nos Estados Unidos. Em apenas uma semana , as acções do grupo Volkswagen - que chegaram a cotar nos 250 dólares em Março deste ano - passaram de 132 dólares para menos de 100! A Suíça, primeiro, e depois a Bélgica, os Estados Unidos e agora Espanha deram ordens para suspender os veículos com o logótipo do grupo alemão. O Fundo Soberano do Qatar perdeu 12 mil milhões de dólares e a Porsche, que é uma das marcas da Volkswagen AG, 10 mil milhões. Só no dia 21 - após assumir a manipulação das emissões dos motores 2.0 a diesel - as acções do construtor automóvel encerraram a perder 23% na bolsa alemã, ou seja, qualquer coisa como 14 mil milhões de euros. Esclarecido?

Olhemos agora para o "evento" em si que é aquilo que tem feito mexer (entenda-se, afundar) os mercados. Mais do que manipular os níveis de gases emitidos pelos veículos do grupo com a motorização em causa, o problema maior é o da confiança. Não interessa se os carros Volkswagen, Seat, Skoda ou da Audi poluem mais um grama ou dois do que era suposto. Até porque nos EUA os níveis de medição destas emissões variam quase de Estado para Estado. E nem vale a pena falar na guerra, antiga e implícita, entre construtores norte-americanos - peritos nos muscle cars a gasolina - e os europeus que são especializados no diesel.

A questão centra-se no engano. E porquê? Porque a marca tem um valor associado; tem um grau de qualidade que lhe foi atribuído, ao longo dos anos, pelo mercado. Criou-se confiança em torno de uma marca que nos defraudou a todos. E o futuro não se avizinha fácil para o construtor automóvel que terá de não só restaurar a confiança como encontrar uma alternativa para ficar mais amigo - e desta vez a sério - do ambiente. É provável que, pelo meio, se descubram mais fraudes de outras marcas.

Se fosse o senso comum a reinar, quase que poderíamos dizer que NINGUÉM cumpre totalmente as normas. Mas quando falamos de gigantes como a Volkswagen, não há espaço para o senso comum. Como também não haverá senso comum no impacto que os produtos Made in Germany sofrerão com este escândalo e, a outro nível, o PIB alemão, o maior da Europa e um motor importante no processo de recuperação da Zona Euro.

sábado, setembro 05, 2015

Vai uma pizza com extra queijo?

Já se percebeu que as legislativas deste ano vão ser acompanhadas massivamente - e com todo o sentido literal - de um circo mediático. E este "circo" não se aplica apenas a este episódio. São cada vez mais comuns "directos" e "reportagens" deste género. Será que em tempo de crise vale quase tudo? Parece-me mais do que evidente que o tipo de notícias e a forma como muitas vezes são retratados os casos confirmam a tendência sensacionalista da cobertura. Basta olhar para a última noite e para os directos que decorreram à (nova) porta de José Sócrates.

Pelo que vi, não se disse nada de novo. Repetiu-se, até à exaustão, o processo; as decisões, o que aí pode vir. Até aí tudo bem! Mas o momento "tcharam" da noite estava reservado para o rapaz de entregas da Telepizza que chegou com uma encomenda. Não sabia para quem e isso também não se lhe exigia. O que se seguiu foi um momento de puro jornalismo CULINÁRIO: perguntaram - sim, os jornalistas que lá estavam (ou pelo menos um deles)! - quais os componentes da dita pizza. O que se seguiu foi simplesmente indescritível.

O momento jornalístico terminou com outra bela notícia: o rapaz das pizzas não pôde entregar a encomenda porque não trazia cartão do cidadão e a polícia que guarda a porta de Sócrates não permitiu que entrasse.

Não sei se as audiências - que são o oxigénio económico-financeiro dos meios - corresponderam ao nível jornalístico deste evento específico. Espero que não. Mas "cheira-me" que vamos ter mais momentos extra queijo no próximo mês.